A nova língua celular portuguesa
Se a conta veio poderosa e a mãe chiou, não é problema. O importante é quando o recado dá certo e rolou a balada ou programa.
"Na maioria das vezes, eu mando mensagem para zoar mesmo ou conversar na escola", conta Guilherme Bittencourt, 16 anos. Algo como "Cido, não dorme na aula" para o amigo que estuda em outra sala. Já combinou de sair com alguma menina? "Já", responde rápido. E deu certo? "Já deu certo e já deu errado", diz, explicando que os programas do tipo cinema são os que dão mais certo.
Os conhecedores dessa nova linguagem só lembram que, qualquer que seja o teor da mensagem, é bom tomar cuidado para que o recado não seja mal interpretado.
"Uma vez esqueci de colocar uma vírgula e a minha amiga entendeu tudo ao contrário", diz Paula Meneses. Ela também manda recadinhos quando está brigada com alguém. "É uma forma bacana de pedir desculpas". Em seu celular, o registro de uma das últimas mensagens enviada era para combinar a balada em uma matinê, na zona sul de São Paulo: "VX VAI VIM P STORM? BJS PAULINHA"
Seu irmão Thiago, 17 anos, não extrapola na conta de créditos (R$ 100), mas lembra que o vocabulário básico do celular já foi incorporado. Inclusive para colar nas provas. "O pessoal envia resposta de teste ou dica para as respostas escritas".
Se você ainda não entrou nessa linguagem, não tem problema. Dá para aprender alguns macetes:
aqui - "aki"
até - "ateh"
beijos - "bjs"
de - "d"
depois - "dps"
para - "pah" ou simplesmente "p"
que - "q"
você - "vc" ou "vx"
valeu - "vlh"
Para quem se sente "assassinando" a língua pátria, vale informar que os modelos mais modernos de celular já trazem um software que vai completando mensagens, ou seja, já completa o texto quando se trata de palavras ou abreviações comumente usadas. Não é tudo o que se pode pedir?
Os colégios não permitem o uso de telefone durante as aulas, mas sempre tem alguém que esquece o aparelho ligado e acaba levando bronca. Mas, afinal, é necessário ter celular?
RENATA GALLO
A cena parece mais a do filme Patricinhas de Beverly Hills, mas acontece na maioria dos colégios particulares da cidade. Apesar de os celulares serem proibidos nas salas de aula, as meninas, que odeiam ser chamadas de "patricinha", adoram perder os intervalos entre as aulas e o recreio para trocar mensagens e conversas via fone, mesmo que sua colega esteja a poucos metros de distância. Marcela Coelho dos Santos e Paola Rossi Santaleão, ambas de II anos, estão entre esses exemples. As duas, que estudam no colégio Nossa Senhora das Graças, o Gracinha, se vêem todos os dias, mesmo nos fins de semana, mas adoram trocar confidências pelo celular. "Quando a gente vai viajar, uma senta no banco da frente do carro e outra no de trás, daí ficamos trocando mensagens", diz Marcela. Tanto assunto, no entanto, implica uma conta de telefone não muito amigável. Marcela, por exemplo, gasta cerca de R$ 50,00 por mês, e Paola, R$ 90, Ana Maria, mãe de Marcela, sempre foi contra o uso de celular, mas a filha acabou ganhando o presente do pai há dois anos, "Acho mais um artigo de consumo e não vejo necessidade. É apenas um gasto a mais." Mas a maioria dos pais não concorda e acha que o telefone é questão de segurança, fundamental para saber onde estão seus filhos ou apenas para marcar o melhor lugar para pegá-los na escola ou no shopping. Rossana, mãe de Paola, acredita que o telefone faz com que seus filhos se sintam mais próximos dela. "Trabalho muito e agora podemos nos achara qualquer hora. É um conforto", conta Rossana, que também deu celular para seus outros dois filhos,de 14 e 8 anos. Usar celular nos horários de lazer, tudo bem.
0 problema começa quando a galera vai para a sala de aula e esquece de desligá-lo. "Urna vez,o meu telefone tocou três vezes na aula. A orientadora pegou e sô rne devolveu na outra semana", lembra Marcela.Se deixar o telefone tocar dentro do cinema já é ruim, imagina na sala de aula. "0 celular atrapalha o trabalho da classe, pois todos acabam se distraindo", diz Nausica Riatto, uma das coordenadoras pedagógicas do Sion. Mesmo sabendo disso,Flávia Seixas Martinez, de 13 anos, do Module, costuma deixar o seu no vibracall, quando esta esperando alguma ligaçao importante. "Quando ele vibra, finjo que quero ir ao banheiro e saio correndo da classe para atendê-lo." Essas ligações "importantes", normalmente, são de sua prima, querendo marcar algum programa para o dia.Para a pedagoga Maria Angola Barbato Cameiro, professora da PUC, o celular da mais autonomia a quem obtêm, mas não é fundamental para crianças e adolescentes. Segundo ela, o celular só reforça a idéia de que as crianças, cada vez mais, estão agindo precocemente e tendo comportamento de adultos. No Sion, além de o celular ser encarado como algo indispensável, ele também tem substituído alguns brinquedos e se tornado mania. "Sei que é mais moda que necessidade, mas eu queria um há muito tempo ", diz Thaïs dos SantosMiranda Silva, de 11 anos. Queria tanto que quando ganhou de uma tia andava com ele embalado em um plástico colado com durex, dentro da caixa e da sacola para não estragar.
"Quando tocava era um apuro para tirar da sacola, da caixa e do plâstico", lembra. Carolina Carpi Torloni, também de 11 anos, gosta tanto do seu que separou uma prateleira em seu armário para ele. "Coloquei o nome dele de Nenê e guardo em um suporte para celular, que tem forma de mão." Sua colega Alina Rowitha também batizou seu celular. Chama-se Fofi e tem três capinhas diferentes e dois bichinhos de pelúcia para vesti-lo. "Ele é muito fofo, não consigo ficar longe dele ",diz.
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